Depoimentos colhidos junto a pessoas que insistem em manter viva a cultura negra na história do Brasil revelam como é grande a distância entre o que manda a lei, a boa convivência entre culturas diferentes e as iniciativas que o poder público adota no sentido de diminuir os casos de racismo no país. Para isso, mestres, defensores e até estudiosos da cultura popular defendem o ensino da história e da cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas como forma de combater a intolerância e o racismo. No Brasil, esse ensino está previsto na Lei 10.639/03 e deveria estar acontecendo em todas as escolas públicas e particulares. A lei, no entanto, não é cumprida em muitas instituições.
Tem escola que finge que faz, tem escola que nem finge. Tem algumas que colocam uma estante com alguns livrinhos. Para que? Se alguém perguntar, respondem ‘Nós temos, olha nossa biblioteca, mas é fingimento”. Quem diz esta verdade é a dirigente da Federação dos Congados de Minas Gerais, também responsável por levar a cultura negra brasileira a
festivais nacionais e internacionais.
Ela e muitos outros defendem a educação como forma de os brasileiros conhecerem a própria história, da história do povo negro e todas as suas contribuições nas mais diversas áreas de conhecimento, para não serem apagadas. São pessoas que realizam conversas e palestras em escolas para ajudar na formação de professores para este ensino, uma vez que os próprios professores não dominam o assunto.
Defendem todas as iniciativas capazes de proporcionar conhecimento não só da cultura negra, como também da cultura indígena, que antecedeu todas as outras, antes de o Brasil ser ocupado pelos europeus. Olhando especificamente para a região norte do Espírito Santo, falta aos professores conhecimento suficiente para falar, por exemplo, da Batalha do Cricaré, que envolveu os povos que habitaram esta região, onde hoje está Conceição da Barra.
A batalha, entre índios, que defendiam suas terras da invasão dos brancos, causou o maior genocídio da história do Brasil. Fato pouco conhecido e nunca contado nas salas de aulas de Conceição da Barra, onde, após o descobrimento, os grandes navios aportavam e de onde partiam embarcações menores rio acima até São Mateus. Para contar histórias como essa uma professora ou professor precisa ser ensinado, precisa conhecer o fato para falar dele aos seus alunos. Diz-se que povo que não lembra do seu passado, nunca terá um futuro.
As tradições contam com mais de 300 anos de história e têm como identidade fundamental a ancestralidade de matriz africana com canto, ritmo e dança. E é nessa história que se baseia a 14ª edição do Festival Artes Vertentes cuja programação de 2025 também faz parte da Temporada França-Brasil, que ocorre até o final do ano em 15 cidades brasileiras e tem como objetivo aproximar, os países por meio da cultura. O festival segue até dia 21 na cidade de Tiradentes, Minas Gerais, com mostras de cinema que discutem memória, ancestralidade e resistência também nas cidades de São João del Rei e Bichinho. Mais detalhes no site www.artesvertentes.com/ disponível no Portal da Rede Barcos.
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