A construção da fábrica da GWM em Aracruz deve mobilizar a indústria metalmecânica e de material elétrico do Espírito Santo em uma escala que o setor não via desde a implantação dos grandes projetos de celulose. A estimativa do Sindifer-ES, sindicato que representa o segmento no estado, é que 90% da obra passe por empresas da categoria.
“São as partes de montagem de estrutura, de galpão, montagem dos equipamentos, montagem do cabeamento elétrico, da automação industrial. Isso tudo é metalmecânico ligado ao nosso setor”, disse Luiz Alberto Carvalho, o presidente do Sindifer-ES.
A montadora de Aracruz será completa, com estamparia, soldagem, pintura e montagem final, e não apenas uma linha de montagem. A capacidade projetada é de até 200 mil veículos por ano, com cerca de 3 mil empregos diretos e potencial de 10 mil somando indiretos na plena operação, prevista a partir de 2029.
Setor estruturado
No Espírito Santo, o setor que vai atender essa demanda é bem estruturado. As atividades representadas pelo Sindifer-ES somaram quase R$ 50 bilhões em produção bruta no Espírito Santo em 2023, o equivalente a 45,2% de toda a produção industrial do estado, segundo o Observatório Findes. São 3 mil empresas formais e 53,3 mil empregos.
Para Carvalho, o efeito da montadora vai além do canteiro de obras. “A GWM vai ser um divisor de águas, porque a indústria automobilística tem uma transversalidade muito grande. Ela vai gerar um outro tipo de fornecedor no setor metalmecânico”, afirmou.
A lógica está na estrutura da cadeia automotiva, organizada em três níveis. Os fornecedores tier 1 entregam sistemas diretamente à montadora: chicotes, bancos, painéis, módulos eletrônicos, conjuntos soldados. Os tier 2 abastecem os primeiros com peças usinadas, estampados, molas, conectores e fixadores. Os tier 3 fornecem matéria-prima e serviços industriais como galvanização, tratamento térmico, corte a laser e manutenção.
O mapeamento do Sindifer-ES identifica oportunidades em praticamente toda a base do sindicato: caldeirarias, estamparias, usinagem, fabricantes de fixadores, painéis elétricos e integradores de automação. O sindicato destaca em particular os componentes elétricos, já que veículos eletrificados usam mais chicotes, conectores e sensores do que carros a combustão convencionais.
Fornecedores
O desenvolvimento da cadeia de fornecedores – sobretudo da metalmecânica – na região de Aracruz tem precedente na Aracruz Celulose. Quando a planta foi construída na região na década de 70, a região não tinha sequer estrada pavimentada e a fabricante de celulose era a única grande empresa instalada.
A companhia estruturou um programa de desenvolvimento de fornecedores locais, e muitos dos próprios funcionários abriram negócios para atendê-la. Foi desse movimento que nasceu o polo metalmecânico da região, hoje ancorado por empresas como Imetame e Estel e pelos terminais de Portocel e do estaleiro Seatrium.
A grande diferença é o ponto de partida. Enquanto a Aracruz Celulose precisou criar sua cadeia do zero, a GWM tem o terreno preparado por cinco décadas de indústria.
“A GWM já chega numa vantagem. Ela tem um ambiente muito mais propício para recebê-la, com boa infraestrutura construída e muita estrutura em construção, como os contornos de Aracruz e os portos”, disse Luiz Alberto Carvalho.
O terreno mais bem preparado, porém, não dispensa a montadora do mesmo dever de casa que a fabricante de celulose fez nos anos 1970. A indústria automotiva tem suas exigências e uma necessidade de escala ainda maior. O adensamento que o projeto promete depende da GWM se espelhar no trabalho de qualificação de fornecedores que transformou Aracruz ao longo das últimas décadas.
“A planta será altamente robotizada e vai exigir mão de obra em automação que o estado ainda precisa formar, o que deve demandar uma reestruturação da oferta do Sistema S na região. Com a chegada da Marcopolo em São Mateus toda mão de obra foi ajustada, o cenário se ajustou, e lá em Aracruz vai ser a mesma coisa”, compara o presidente do Sindifer-ES.
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